"–
Em meu curioso ontem – respondi -, prevalecia a superstição de que
entre cada tarde e cada manhã ocorrem fatos que é uma vergonha ignorar. O
planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o
Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história anterior
desses entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último
congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens
que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário
com a prudente imprecisão que era própria do gênero."
trecho de 'Utopia de um homem que está cansado' Extraido do “O Livro de Areia” de Jorge Luis Borges
domingo, 10 de maio de 2015
quem né visto né lembrado kaufman e café sem fé no homem nem pé no ontem nem sei do monte de roupa suja que seis chamam de vida
Scene from Charlie Kaufman's "Synecdoche, New York."
Num mundo que se propõe pós-gênero, ou seja, o gênero não sendo parte
integrante dos símbolos hierárquicos sociais, sendo menor, como, por
exemplo, uma característica física (altura, formato do corpo etc), ou
ainda não se estabilizando como uma relação binária (0-1, a-o,
menino-menina, pênis-vagina), mas com uma diversidade muito mais
agregadora e diversa não seria coerente aceitar párticulas definidoras de gênero binárias, ou a sobreposição de um sobre o outro (exemplo dado pela Vivian na questão dos plurais serem dominados pela artigo masculino).
Ainda que seja estranho, feio etc, a construção linguística é por onde
passa a mudança, sendo estrutura ideológica das ideias, de fácil
utilização para justificar dominações. Lembro sempre de aulas de
educação religiosa onde diziam "não acreditam em deus mas pedem pelo
amor de deus por algo", ou seja, não tendo outra reação ou construção
linguística disponível, fica dominado por um pensamento teísta, só para
exemplificar a dominação através da linguagem.